Crise abre espaço para crescimento do Lloyds
Richard Ward, CEO do Lloyds, está otimista. Acha que a demanda por seguro vai crescer com a crise e a recessão global. A razão é que as empresas vão querer maior proteção para seus ativos e acionistas. "Companhias e indivíduos ainda precisam comprar proteção para seus riscos", afirmou, completando que "historicamente", o setor sempre vai bem em períodos de recessão.
Pesquisa do próprio Lloyds, divulgada no "Insurance Day Summit London", mostra que 33% dos entrevistados (que incluem diretores financeiros e gestores de risco) afirmam ter cortado a quantidade de apólices que colocavam em empresas como AIG, Hartford e XL, alegando preocupação com o futuro dessas companhias. São esses clientes que o Lloyds quer abocanhar.
No Brasil, o escritório foi inaugurado oficialmente no Rio no mês passado e os negócios já cresceram 79%. Os prêmios somaram £ 95 milhões (R$ 314 milhões) em 2008, bem acima dos £ 53 milhões (R$ 175 milhões) do ano anterior. Junto com o Lloyds foram alguns de seus sindicatos, como a Liberty, a Marlborough e a Catlin. O Lloyds pode ser considerado como um shopping center, com os sindicatos representando as lojas, que oferecem as mais diferentes coberturas para grandes riscos.
Além do Brasil, o Lloyds recebeu licença para operar em Portugal e já pediu autorização para entrar nos mercados da Turquia e da República Tcheca. Ainda avalia oportunidades no Oriente Médio e África. "Não podemos esperar que os corretores fiquem pelas ruas de Londres com um papel em busca de clientes. Precisamos ser acessíveis globalmente. Senão, nossos competidores o farão", diz Sue Langley, diretora de operações do Lloyds.
Segundo ela, o Lloyds, criado há mais de 300 anos, já provou que pode se modernizar e se adaptar aos novos tempos. Nada menos que 90% dos novos sinistros são processados eletronicamente, gerando economia de 40% no tempo. "Queremos fazer negócios. Não importa a localização geográfica."
O interesse do Lloyds em se internacionalizar ocorre em um momento em que algumas regiões do planeta vem ganhando espaço no mercado global de grandes riscos, segundo especialistas ouvidos pelo Valor na conferência em Londres, que reuniu profissionais de todo o mundo. Dubai e Índia, além de Bermudas, são citados como locais que têm atraído grandes contratos. Mas poucos acreditam que o mercado inglês vá deixar de ser o principal do mundo. No ano passado, o Lloyds de Londres registrou prêmios de £ 6,3 bilhões no resseguro, expansão de 15%.
A crise e a recessão, ao mesmo tempo que geram oportunidades, também criam novos riscos, diz o presidente do Lloyds. A recessão pode aumentar os riscos políticos, como o de expropriações de propriedade, revisão de contratos de concessão e um maior protecionismo, além da nacionalização de empresas privadas. Em meio a tudo isso, há também os piratas da Somália. Já são mais de 200 casos de sinistros que ocorreram no Golfo de Aden. "Vamos assistir a um crescimento significativo da pirataria à medida que a recessão se agrava", diz Ward. Curiosamente, o Lloyds foi criado para proteger as embarcações inglesas de ataques de piratas, 300 anos atrás.
Em tempos de transformação no mercado financeiro mundial, há também quem defenda mudanças estruturais no próprio Lloyds. Robert Hiscox, chairman da Hiscox, a seguradora mais antiga que opera no Lloyds, defende a transformação do mercado em uma bolsa, com taxas cobradas dos sindicatos e estímulo ao lucro. Em 2006, ele ficou famoso por defender a privatização do Lloyds, que é uma sociedade de membros.(Fonte: Valor Econômico)